Jornalismo com sarjetas


 Jornalismo em quadrinhos – Blog

Não é de hoje que o jornalismo tenta se reinventar para alcançar novos públicos e explorar outras formas de contar histórias. Do documentário às grandes reportagens multimídia, novos formatos surgem o tempo todo com o objetivo de informar, contextualizar e criar envolvimento com o leitor. Dentro desse movimento de reinvenção, um formato vem ganhando cada vez mais espaço — embora ainda circule majoritariamente fora do mainstream: o jornalismo em quadrinhos, também conhecido como graphic journalism.

Por mais contemporânea que essa linguagem possa parecer, suas raízes são antigas. Antes mesmo da popularização da fotografia, jornais do século XIX já utilizavam ilustrações para retratar guerras, julgamentos e acontecimentos políticos. Artistas acompanharam conflitos como a Guerra da Crimeia e a Guerra Civil Americana, registrando cenas que a tecnologia da época não conseguia captar. O desenho, desde então, já funcionava como ferramenta informativa e documental.

Quando o desenho era a principal forma de noticiar o mundo

Com o avanço das tecnologias, as câmeras se tornaram mais acessíveis e as fotografias mais rápidas e baratas de serem produzidas. Esse processo fez com que a ilustração jornalística migrasse, em grande parte, para formatos mais opinativos, como a charge. Ainda assim, o impulso de narrar acontecimentos reais por meio do desenho nunca desapareceu.

No contexto brasileiro marcado por censura em diferentes períodos históricos o desenho frequentemente funcionou como alternativa para dizer aquilo que o texto não podia afirmar diretamente. A imagem se tornava linguagem de resistência, ironia e crítica velada, preservando o vínculo entre visualidade e informação.

 

A imprensa no século das Luzes: da gazeta ao diário  

Exemplo de gravura muito comum em jornais no século XVIII


 Nem tudo que é não ficção é reportagem

Durante muito tempo, inclusive, eu mesmo associei o jornalismo em quadrinhos a obras como Maus, de Art Spiegelman. Não por acaso: trata-se de uma das mais importantes obras de não ficção em quadrinhos já produzidas. No entanto, apesar de sua força histórica e narrativa, Maus não pode ser considerado um quadrinho-reportagem.

A obra se constrói a partir da memória, do testemunho familiar e da reconstrução subjetiva do passado  e não de uma apuração jornalística em campo. Isso não diminui sua relevância, mas ajuda a delimitar conceitos. Maus é uma obra memorialística, não um produto do fazer jornalístico. É justamente nessa distinção entre memória e reportagem que emerge um nome central para o jornalismo em quadrinhos: Joe Sacco.

 
Maus: uma obra de memórias do Holocausto em forma de quadrinhos 
  Maus de Art Spiegelman

Joe Sacco e o momento em que o quadrinho vira reportagem

Nascido em Malta, em 1960, e formado em jornalismo pela Universidade de Oregon, Joe Sacco percebeu cedo as limitações narrativas do jornalismo tradicional, especialmente na cobertura de conflitos internacionais. Ao unir investigação, entrevistas, observação direta e checagem rigorosa à linguagem dos quadrinhos, Sacco transformou o desenho em parte central da apuração jornalística.

Obras como Palestine estabeleceram um modelo que influencia jornalistas e artistas ao redor do mundo inclusive no Brasil. Nos quadrinhos, Sacco encontrou uma liberdade narrativa que o jornalismo convencional raramente permite. O desenho possibilita reconstruir cenas, dar rosto a personagens invisibilizados e tratar conflitos humanitários com profundidade, sem abrir mão do rigor ético e investigativo. Embora Sacco atue em contextos internacionais, sua abordagem ajuda a pensar dilemas muito próximos da realidade brasileira, especialmente em um cenário marcado por redações precarizadas e pela lógica da notícia rápida.


Joe Sacco | JORLITERATURA 
  Joe Sacco e sua versão em desenho 

Por que o quadrinho-reportagem faz tanto sentido no Brasil

Os quadrinhos-reportagem se diferenciam de outros formatos jornalísticos principalmente pela imersão. Em vez do distanciamento característico da cobertura factual, o jornalismo em quadrinhos aposta na observação prolongada, no contato direto com as pessoas e na reconstrução cuidadosa dos ambientes.

Essa lógica de permanência  já presente no modelo consolidado por Sacco  ganha contornos ainda mais potentes no Brasil. Em um país marcado por desigualdades sociais extremas, o quadrinho-reportagem permite revelar camadas da realidade que costumam ser simplificadas ou estigmatizadas na cobertura cotidiana. O leitor não apenas consome dados, mas acompanha trajetórias humanas, silêncios, gestos e contradições. Em muitos casos, o próprio jornalista aparece como personagem da narrativa, assumindo sua presença no campo. Essa escolha rompe com a ideia de neutralidade distante, se expondo a atravessada por classe, território e posição social.


São Francisco – Edição Especial – COMIC BOOM! 
Quadrinho brasileiro São Francisco, quadrinho-reportagem e livro de  fotografia criado por  Gabriela Güllich e João Velozo  

Diferente de charges e ilustrações decorativas, o graphic journalism utiliza o desenho como elemento central da apuração. Texto e imagem são indissociáveis e constroem juntos o sentido da reportagem. No Brasil, essa linguagem dialoga com uma tradição de jornalismo visual crítico, mas também responde a uma necessidade contemporânea: encontrar formas mais acessíveis e sensíveis de comunicar temas complexos em um país de baixa leitura e alto consumo visual. No graphic journalism, essa lógica se intensifica. Por se tratar de projetos longos, próximos do livro-reportagem, há espaço para aprofundar contextos históricos, políticos e sociais. Essa característica é particularmente relevante no Brasil, onde temas como racismo estrutural, violência policial, crise climática, conflitos urbanos e violações de direitos humanos exigem abordagens que ultrapassem a lógica do factual imediato. 

Jornalismo em quadrinhos – conheça esse Gênero literário - Estudio Web 
Alguns exemplos de quadrinhos reportagens  

Uma fissura necessária no jornalismo contemporâneo 

É nesse ponto que o jornalismo em quadrinhos se consolida como uma linguagem legítima do jornalismo contemporâneo. Ao unir ética jornalística, investigação rigorosa e narrativa visual, o quadrinho-reportagem amplia as possibilidades de contar o real e oferece visibilidade a experiências que costumam ficar à margem da cobertura tradicional. No Brasil, esse movimento se fortalece principalmente através da internet e de iniciativas independentes. A circulação digital abriu novas janelas para o jornalismo em quadrinhos, permitindo que reportagens gráficas sejam publicadas fora dos grandes veículos. Projetos como a revista Badaró demonstram que o formato pode ocupar um espaço editorial permanente, com foco em pautas sociais, direitos humanos e questões políticas. Além disso, coletivos e portais brasileiros têm utilizado o quadrinho-reportagem para abordar temas como enchentes, crise climática, violência urbana, conflitos territoriais e lutas sociais. Nessas produções, o desenho não suaviza a realidade, mas a torna mais próxima, mais compreensível e, muitas vezes, mais incômoda. Ao se adaptar às urgências brasileiras, o graphic journalism deixa de ser apenas uma importação estética e se afirma como uma ferramenta narrativa capaz de traduzir a complexidade do país. Trata-se de uma linguagem que não apenas informa, mas também provoca, humaniza e amplia os limites do fazer jornalístico no Brasil contemporâneo.

Ao se adaptar às urgências brasileiras, o graphic journalism deixa de ser apenas uma importação estética ou um experimento de linguagem. Ele se afirma como uma resposta direta às limitações estruturais do jornalismo no país. Em um cenário marcado por redações encolhidas, cobertura apressada e narrativas que frequentemente reduzem pessoas a números ou estereótipos, o quadrinho-reportagem surge como um gesto de desaceleração e de escuta. Optar por contar uma história em quadrinhos, no Brasil, não é apenas uma escolha formal. É uma decisão política. Significa investir tempo, presença e envolvimento em um ambiente jornalístico cada vez mais pressionado por cliques, métricas e instantaneidade. Significa também assumir que certas experiências, especialmente aquelas vividas por populações periféricas, racializadas e historicamente silenciadas, não cabem nos limites da notícia tradicional. Ao colocar o repórter no campo e, muitas vezes, dentro da própria narrativa, o jornalismo em quadrinhos rompe com a falsa ideia de neutralidade que ainda domina parte do discurso jornalístico brasileiro. Ele explicita o ponto de vista, reconhece a subjetividade como parte do processo e, ao fazer isso, se torna mais honesto com o leitor. Não se trata de abandonar o rigor, mas de admitir que toda narrativa é atravessada por escolhas, enquadramentos e ausências.
 
Reportagem em quadrinhos de Pablito Aguiar sobre enchentes no RS ganha  versão impressa - Fora do Plástico
Em um país onde a violência de Estado, o racismo estrutural, a crise climática e as desigualdades sociais são frequentemente tratadas de forma episódica ou superficial, o graphic journalism oferece outra possibilidade: a de acompanhar processos, escutar trajetórias e construir memória. O desenho, nesse contexto, não suaviza a realidade. Pelo contrário, ele insiste nela, reconstrói o que foi apagado e devolve complexidade ao que costuma ser simplificado. Talvez seja justamente por isso que o jornalismo em quadrinhos ainda permaneça à margem dos grandes veículos brasileiros. Ele exige tempo, envolvimento e responsabilidade. Exige que o jornalista esteja disposto a olhar mais de perto, a permanecer mais tempo e a se implicar naquilo que está contando. Em um ecossistema midiático que valoriza velocidade acima de tudo, essa escolha soa quase como um desvio.

Ainda assim, ou talvez exatamente por isso, o quadrinho-reportagem se coloca hoje como uma das linguagens mais potentes para pensar o jornalismo no Brasil contemporâneo. Não como substituto da reportagem tradicional, mas como uma fissura necessária. Uma forma de lembrar que informar não é apenas relatar fatos, mas disputar sentidos, dar corpo às histórias e reconhecer que o jornalismo, antes de ser produto, é prática social.

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