World of Horror uma carta de amor ao Horror
O que um dentista, um mangaká de terror e um escritor de ficção científica têm em comum? A resposta é um jogo: World of Horror, uma das obras mais singulares do terror indie dos últimos anos e a prova de que não é preciso um estúdio gigante, nem uma equipe de dezenas de pessoas, para criar algo verdadeiramente perturbador.
Concebido inicialmente como um card game e mais tarde reimaginado como videogame, o projeto nasceu inteiramente das mãos de Paweł Koźmiński, dentista polonês nascido em 1992 em Wrocław, que hoje assina seus trabalhos como Panstasz. World of Horror carrega inspirações claras do mangaká Junji Ito e do escritor norte-americano H.P. Lovecraft, pai do horror cósmico tanto que pode ser descrito, sem exagero, como uma carta de amor a ambos.
Do consultório odontológico ao pesadelo
Koźmiński desenvolveu o jogo nas horas vagas enquanto trabalhava como dentista, inspirado pelo estilo de jogos da década de 1980 para Macintosh e PCs antigos uma estética com forte valor sentimental para quem viveu a era dos primeiros computadores domésticos. A ideia começou como um jogo de tabuleiro de cartas, mas Koźmiński achou o formato demorado demais e decidiu reimaginá-lo como videogame.
Entre 2016 e 2019, ele lançou diversas demos no itch.io e apresentou o projeto em eventos como a PAX, além de um teaser anunciado em julho de 2018. Um acordo de publicação com a Ysbryd Games permitiu que ele se dedicasse ao projeto em tempo integral, e o jogo entrou em acesso antecipado em fevereiro de 2020, recebendo atualizações constantes com base no feedback da comunidade.
O caminho até o lançamento completo não foi simples: a data original, prevista para 2019, foi adiada para o final de 2020, depois para o verão de 2023, até finalmente sair em 19 de outubro de 2023 para macOS e Windows. As versões para Nintendo Switch, PlayStation 4 e PlayStation 5 chegaram uma semana depois, em 26 de outubro, com a trilha sonora composta por Sebastian Zybowski e Joseph Bailey lançada separadamente em 24 de outubro. A edição física para Switch veio com manual de instruções e um baralho de cartas de arte dos Deuses Antigos, e a Fangamer lançou uma linha própria de produtos licenciados do jogo.
MS Paint e uma estética assombrada
Todo o visual de World of Horror milhares de imagens foi criado por Koźmiński no Microsoft Paint, em pixel art de 1 bit (preto e branco puro, com a opção de trocar a paleta de cores). Ele escolheu esse estilo tanto para imitar a textura do traço de Ito quanto para evocar a estética de interfaces antigas, como as dos computadores PC-8800, PC-9801 e Macintosh II. O jogo foi construído no motor GameMaker Studio 2. Sobre as limitações do programa, ele comentou:
"Criar arte em Paint é realmente inspirador e, de alguma forma, relaxante. Os limites do programa forçam você a ser criativo com ele, o que é algo enorme. Acho que a arte em preto e branco de 1 bit é o mais próximo que consigo chegar para simular essa sensação de quadrinho também."
Entre o cósmico e o corporal
A grande genialidade de World of Horror está em como ele cruza duas tradições de horror que raramente convivem tão bem. De um lado, a herança lovecraftiana: o medo nasce do psicológico e do incompreensível, não do susto barato não há jump scares aqui, e sim uma tensão que se acumula em silêncio. De outro, a marca registrada de Junji Ito: o horror corporal, visceral, de corpos que se distorcem e mutilam diante dos olhos do jogador. O resultado é um mix perturbador e genuinamente único.
O jogo se passa no Japão dos anos 1980, na cidade fictícia de Shiokawa. Como descreve a sinopse oficial:
"Os Deuses Antigos estão despertando, recuperando seu caminho de volta para um mundo que está se transformando em loucura. Em hospitais, salas de aula abandonadas, apartamentos tranquilos e florestas escuras, aparições estranhas e fenômenos inexplicáveis testam a sanidade dos moradores de Shiokawa. É uma retribuição caótica, ou as maquinações de seres além da nossa compreensão?"
Como se joga
World of Horror é um RPG roguelite construído em torno de partidas individuais e autocontidas. Cada campanha apresenta cinco mistérios diferentes a serem resolvidos, cada um associado a uma das cinco chaves usadas ao final para destrancar o farol da cidade e enfrentar um dos vários Deuses Antigos possíveis que ameaçam Shiokawa.
No início de cada partida, um Deus Antigo específico é sorteado e passa a influenciar toda a sessão com efeitos negativos — impedindo, por exemplo, que o jogador recupere vida e sanidade descansando em casa, removendo a loja principal de itens ou acelerando o medidor de "Doom". Esse medidor sobe a cada ação tomada (e pode disparar ainda mais rápido por conta de certos eventos); quando chega a 100%, a entidade é convocada e a partida termina.
A jogabilidade lembra a de uma aventura clássica com eventos aleatórios: o jogador se move entre salas, investiga locais, resolve quebra-cabeças e enfrenta criaturas hostis em combate por turnos, sempre correndo contra o tempo do medidor de Doom. As criaturas variam de espíritos assombrados e humanos deformados a deuses esquecidos há eras e, em contraste bem-vindo, até um simpático corgi que trabalha como lojista de equipamentos.
Minhas impressões
Acho que mais gente deveria conhecer esse jogo não tanto pela sua história de desenvolvimento, por mais interessante que seja, mas pela sua ambientação. Se você gosta de lendas urbanas japonesas, creepypasta ou terror atmosférico, vale muito a pena conferir.
O jogo traz algumas campanhas fixas e um modo livre, cada uma reunindo personagens com status e histórias diferentes de uma aparição na escola, com um fantasma carregando uma tesoura, até um caso perdido numa floresta, culminando sempre na missão de impedir que um deus ancião destrua o mundo. Mesmo curtas, essas histórias constroem uma ambientação de terror sólida, cheia de detalhes sinistros.
Um dos casos que mais me marcou começa com uma carta avisando sobre a morte do tio-avô da protagonista. A pedido do falecido, uma vigília noturna antecede o enterro, e você é convidado a comparecer junto com outras pessoas que não reconhece. Num clima cada vez mais estranho, pequenos acontecimentos vão se desenrolando até culminar em um pacto com uma criatura terrível — uma sequência extremamente "junjiitesca", no melhor sentido.
O problema é que as descrições e falas do jogo raramente passam de poucas frases — às vezes um parágrafo curto, quando muito. A descrição inicial de cada caso costuma ser a maior parte do texto que vamos ler durante todo aquele mistério. Entendo a escolha de priorizar as imagens sobre o texto, mas existe um limite do quanto dá pra transmitir sem um pouco mais de corpo narrativo.
Por outro lado, considerando a inspiração declarada em Lovecraft, talvez essa brevidade seja proposital: os contos do autor também costumavam terminar de forma repentina, com poucas falas e personagens, apostando quase tudo na atmosfera sombria e misteriosa. Se foi intenção ou limitação, o efeito colateral é o mesmo fica um gostinho de "quero mais".
World of Horror recebeu críticas majoritariamente positivas ao redor do mundo: foi eleito um dos melhores jogos de terror de 2023 pela PC Gamer e alcançou nota 78/100 no Metacritic, com base em 22 análises. O reconhecimento recaiu principalmente sobre o estilo retrô, o enredo e a atmosfera, celebrados tanto por fãs de terror quanto por nostálgicos de computadores antigos embora o combate tenha sido o alvo mais recorrente de críticas.
Vale destacar também que o jogo está disponível em japonês, e Koźmiński retratou o Japão, sua cultura e suas crenças antigas com fidelidade suficiente para conquistar também o público local prova de que dá para fazer uma homenagem sincera a uma cultura sem ser dela.
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