o cinema sobrevive a ascensão do streaming?



Já ouvi muitas pessoas falarem que não vale a pena ir ao cinema. Seja por causa do preço do estacionamento, pipoca ou a incerteza de pagar para assistir um filme que não sabe se vai gostar. Muitos não acham que vale sair de casa ou só vão quando há um filme de real interesse. O ritual de ver trailers sumiu; hoje o que interessa é ver a crítica antes de assistir ao filme. O foco é consumir apenas o que já desperta interesse, sem se arriscar a dar uma chance a algo novo.

Claro, é confortável ver um filme em casa, depois de uma semana cansativa, ligar a Netflix ou a Disney+ para ver um bom filme ou série, você é automaticamente bombardeado por conteúdos já pré-determinados pelo algoritmo, feitos para assistir sem pensar, apenas consumir e preencher a tarde de domingo. Você se entretém vendo Velozes e Furiosos 10 ou O Código Da Vinci pela 15ª vez, faz pipoca e, de pijama, passa o dia inteiro vendo filmes, alguns repetidos, outros tão parecidos que Liam Neeson protagoniza metade deles. O fim de semana perfeito.

Mas é justamente essa facilidade, esse consumo quase automático, que faz muitos olharem para os cinemas de rua como algo ultrapassado, sem entender o valor desses espaços. Essa história de “o cinema de rua vai acabar” não surgiu com o streaming; esse discurso é antigo, vem desde os tempos das VHSs e, mais para frente, das locadoras. Então, dizer que os cinemas de rua vão sumir acontece desde a década de 70. 

O cinema de rua sofreu grande degradação e o que manteve muitos deles abertos durante um bom tempo foram os cinemas de filmes adultos. Em meio ao abandono das antigas salas de rua, o cinema pornográfico acabou garantindo a sobrevivência de muitos desses espaços.Segundo o pesquisador João Soares Pena, no artigo Espaços de excitação: breve trajetória do pornô nas salas de cinema no Brasil (2018), a popularização dos filmes eróticos e de sexo explícito surgiu como uma alternativa comercial diante da queda do público e da concorrência com a televisão e o videocassete. 

Nas grandes cidades, os chamados “cines pornôs” se tornaram pontos de encontro masculinos e movimentaram novamente os centros urbanos, mantendo vivos lugares que, de outro modo, teriam fechado as portas. Mesmo marginalizados, esses cinemas representaram uma forma curiosa de resistência cultural, adiando o fim dos cinemas de rua e preservando parte da dinâmica social que eles sempre representaram.

Mesmo assim, o público começou a diminuir, especialmente com o crescimento dos multiplex: salas menores, com estacionamento, praça de alimentação e curadoria voltada apenas ao lucro. Para entender se o cinema de rua sobrevive à ascensão do streaming, é preciso olhar sua história.

No Brasil, especialmente entre as décadas de 1930 e 1950, o cinema tornou-se o principal entretenimento de massa. Cidades como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Recife e Porto Alegre abrigavam salas luxuosas como o Cine Marabá, o Cine Palácio e o Cine Theatro Brasil, que se tornaram pontos de encontro social. As pessoas iam ao cinema religiosamente: famílias inteiras, casais, grupos de amigos, todos em busca de arte, conversa e pertencimento. O cinema de rua não era só um espaço de exibição; era também um ponto de sociabilidade, um espelho da cidade pulsando à sua volta.

Com o tempo, o cenário mudou. A partir de 1970 com a VHS, em 1990, a chegada dos multiplex e dos DVDs e nos anos 2010, o streaming,que transformou profundamente a experiência cinematográfica. Muitos cinemas de rua fecharam, outros viraram igrejas, estacionamentos ou lojas. Ainda assim, nunca desapareceram por completo. Continuaram resistindo, ora sustentados por coletivos culturais, ora por cinéfilos apaixonados, como pequenas ilhas de curadoria em meio ao oceano de conteúdo rápido. O streaming trouxe benefícios, claro,a democratização do acesso à sétima arte foi um desses benefícios, mas também achatou o olhar do público. Na lógica do “on demand”, escolhemos menos e consumimos mais. O cinema virou ruído de fundo, algo para preencher o tempo, não para ser vivido.

Quando tudo está disponível o tempo todo, a experiência deixa de ter peso. Ver um filme deixa de ser um evento e vira apenas mais uma notificação. E é aí que os cinemas de rua se tornam resistência. Eles preservam algo que o streaming jamais conseguirá reproduzir: a experiência coletiva. O ritual de sentar numa poltrona ao lado de desconhecidos, esperar as luzes se apagarem e mergulhar numa história escolhida por uma curadoria humana, e não por um algoritmo, é algo que não se replica numa Smart TV.

Ir ao cinema de rua é, em certo sentido, um ato político. É recusar o consumo rápido, é escolher o imprevisto, é abrir-se ao que foge do padrão. E talvez por isso, em tempos de excesso e dispersão, esses lugares voltem a ganhar valor simbólico. São espaços de pausa, de escuta e de pertencimento. Desde 2010, há um renascimento silencioso desses espaços. Depois da pandemia, o desejo por experiências culturais presenciais cresceu, as pessoas voltaram a procurar o que é coletivo, o que une, o que faz parte da cidade. O cinema de rua, portanto, não é apenas nostalgia: é uma resposta à saturação digital.

Enquanto o streaming aposta na quantidade, os cinemas de rua apostam na experiência. Enquanto o algoritmo tenta prever o que você quer ver, esses espaços apostam no que você nem sabia que precisava descobrir. Cinéfilos, pesquisadores, artistas e pessoas que buscam experiências fora do circuito comercial enxergam nesses espaços algo além de uma simples sessão: uma forma de vivenciar a cidade e resgatar uma maneira mais humana de consumir arte. Eles não buscam apenas entretenimento, mas significado, curadoria e contato com produções que ampliam horizontes culturais. Assim, os cinemas de rua continuam vivos, ainda que à margem do grande público, refúgios para quem prefere descobrir um filme ao acaso em vez de seguir a sugestão impessoal de um algoritmo.

Por não estarem presos a grandes redes, esses espaços conquistam uma liberdade preciosa: a de escolher o que mostrar. Mostras temáticas, festivais independentes e estreias autorais fazem parte de sua programação. São lugares onde ainda é possível descobrir o novo e revisitar o antigo. A reabertura do Cine Bijou é um exemplo emblemático de como a mobilização coletiva e o afeto pelo cinema podem trazer de volta à vida locais históricos. Ainda assim, essas ações são pontuais e limitadas, muitas vezes dependendo de voluntariado ou de projetos culturais isolados. Falta uma política pública ampla que reconheça os cinemas de rua como parte essencial da memória urbana e da cultura nacional, não apenas como negócios inviáveis diante do streaming.

Enquanto o poder público mantém políticas frágeis e desarticuladas, a sobrevivência desses cinemas depende, em grande parte, da paixão de empresários e coletivos culturais que se recusam a deixá-los desaparecer. São pessoas que entendem que cada sala de rua é também um pedaço de história, uma extensão da vida da cidade. A esperança, portanto, está em formar um público mais consciente e engajado, que perceba esses espaços como verdadeiros patrimônios culturais e atos de resistência diante da lógica do consumo imediato. Valorizar o cinema de rua é valorizar a experiência coletiva de ser espectador, um gesto simples, mas profundamente transformador.

É triste pensar que muitos acreditam que o cinema de rua não vale a pena por falta de interesse ou conveniência; afinal, é mais fácil pausar um filme em casa do que sair para uma sessão longa. Mas essa lógica consumista enfraquece a experiência cinematográfica e empobrece nossa relação com a arte. O Brasil sofre com a diminuição de telas abertas para obras não comerciais, enquanto o streaming privilegia produções estrangeiras de grande bilheteria. Mesmo quando há filmes nacionais disponíveis, a divulgação é mínima, limitando o alcance e o reconhecimento dessas obras.

Apesar do declínio, alguns cinemas resistem graças à mobilização popular, patrocínios privados ou apoio estatal. Eles vão muito além da simples exibição: são lugares de descoberta, vitrines para obras que dificilmente teriam espaço num circuito dominado por franquias milionárias. Enquanto as grandes redes apostam no que é seguro e lucrativo, esses cinemas apostam no humano, no diverso e no autoral, como as livrarias independentes do início dos anos 2000. Pensando nisso, percebo que os cinemas de rua são mais do que um pedaço do passado, são o último respiro de uma experiência genuína. São lembranças, histórias e a alma artística de uma cidade grande; são gerações se emocionando e divertindo. Valorizar o cinema de rua é valorizar a própria experiência coletiva de ser espectador. É lembrar que o cinema não é só imagem, mas encontro, conversa e descoberta. E talvez, no fim das contas, essa seja a forma mais bonita de resistência cultural que ainda temos.


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Os Indicados ao Oscar Minha Crítica dos Indicados

Assasin's Creed o Sopro de Vida da Franquia

Catherine Classic: Fugir também é uma escolha ?