Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte
Um filme sobre carne e fluidos
Recentemente fui ao cinema ver um filme que, mesmo sendo pouco falado, me chamou muito a atenção. Talvez porque ele faça parte de uma espécie de trilogia temática de Jane Schoenbrun, diretora que vem construindo uma filmografia muito particular sobre identidade, cinema, desejo e a dificuldade de entender quem somos. Antes de Acampamento Miasma, Schoenbrun dirigiu We're All Going to the World's Fair e I Saw the TV Glow, sendo este último o único que eu tinha visto antes. E talvez seja justamente por isso que o Acampamento Miasma tenha me interessado tanto. Ele segue uma linha parecida com a de I Saw the TV Glow, mas olha para essa descoberta por outra perspectiva, agora dentro do terror e utilizando o slasher como uma espécie de analogia para falar sobre culpa, desejo e o prazer, às vezes assustador, de finalmente se tornar você mesmo.
Obviamente, Schoenbrun traz novamente um olhar extremamente pessoal para essa experiência. O filme fala sobre ser queer a partir de uma perspectiva muito mais positiva, de libertação e do prazer em fazer o que dá prazer e com quem dá prazer. Como o próprio filme diz, "esse é um filme sobre carne e fluidos", e talvez não exista maneira melhor de apresentar o que estamos prestes a assistir. Acampamento Miasma entrega cenas extremamente provocantes, sensuais e sexuais sem parecer interessado em pedir desculpas por isso. Desculpa aos puritanos que se incomodam com cenas de sexo nos filmes, mas se você também passa boa parte do tempo julgando os fetiches alheios, talvez esse filme seja para você, caso consiga abandonar um pouco esse puritanismo ou talvez seja apenas eu, alguém que enxerga o desejo de uma maneira diferente.
Em todo caso, o filme também parece nascer de uma relação muito forte de Schoenbrun com o próprio cinema de terror. Acampamento Miasma é resultado de horas de filmes slasher questionáveis e propagandas de televisão igualmente questionáveis, transformando essas referências em uma grande brincadeira com a própria linguagem cinematográfica. E é justamente aí que a diretora consegue misturar a descoberta sexual e queer com elementos surrealistas, falhas técnicas, exageros e uma crítica ao funcionamento da própria indústria. Hollywood aparece como uma máquina que recicla franquias, procura novas formas de vender histórias antigas e tenta transformar identidades em produtos, muitas vezes com medo de errar ou de ser rejeitada pelo próprio público que pretende representar.
A premissa de Acampamento Miasma é relativamente simples. Acompanhamos Kris, uma jovem cineasta queer interpretada por Hannah Einbinder, contratada para comandar os bastidores do aguardado reboot de uma antiga franquia de terror. O objetivo é revisitar a história de uma personagem icônica do filme original, Billy, interpretada em sua versão adulta por Gillian Anderson. O problema é que a tentativa de reencontrar essa atriz ultrapassa alguns limites éticos e transforma as gravações em uma experiência cada vez mais próxima do próprio terror que a produção tenta recriar.
Desde os primeiros minutos, o filme apresenta ao espectador a história da franquia Camp Miasma. E é impossível não perceber a inspiração em clássicos do slasher, especialmente Sexta-Feira 13. Depois do sucesso do primeiro longa, em meados dos anos 1980, a franquia passou a produzir continuações cada vez mais absurdas, tentando repetir uma fórmula que já havia funcionado. A própria introdução transforma isso em piada. Somos apresentados a diferentes versões de Camp Miasma, com continuações que parecem seguir todas as possibilidades imagináveis: reboot, filme no espaço, filme no futuro, filme no passado.
A brincadeira funciona porque reconhecemos imediatamente esse comportamento da indústria do terror. Quando alguma coisa faz sucesso, Hollywood parece disposta a continuar produzindo aquilo até não sobrar mais nada para explorar. Acampamento Miasma é, ao mesmo tempo, uma carta de amor e uma provocação aos filmes de slasher e às suas próprias problemáticas. Schoenbrun conhece os clichês do gênero e parece se divertir desmontando cada um deles, mas não está interessada apenas em fazer piada com Hollywood. Existe também uma discussão sobre a maneira como a indústria transforma histórias, corpos e identidades em produtos.
O reboot precisa encontrar uma maneira de vender uma antiga franquia para uma nova geração, enquanto tenta lidar com uma personagem e uma história que pertencem a outra época. É nesse espaço entre passado e presente que Kris e Billy se encontram. Quando Kris conhece Billy, as duas carregam experiências completamente diferentes. Kris se refugia no cinema e no universo dos filmes de terror. Billy, por outro lado, levou esse isolamento ao extremo e praticamente desapareceu do mundo, vivendo no próprio set onde o primeiro Camp Miasma foi filmado.
As duas encontram maneiras diferentes de fugir da realidade. Uma se esconde dentro dos filmes, enquanto a outra se esconde dentro do passado. O encontro entre elas começa justamente quando essas duas formas de isolamento deixam de funcionar. Aos poucos, as experiências e os desejos das personagens começam a se confundir, assim como suas próprias identidades dentro daquela história. Schoenbrun nos deixa à deriva durante boa parte do filme. Existe a antiga franquia, o acampamento, a produção do novo longa, o assassino mascarado e as próprias experiências das protagonistas. Tudo parece caminhar em direções diferentes até que essas peças começam a se encaixar.
É aí que a metalinguagem deixa de ser apenas uma brincadeira. O filme dentro do filme passa a funcionar como uma maneira de falar sobre as próprias personagens e sobre a relação que elas desenvolveram com aquilo que assistem. Essa é uma característica que já aparecia em I Saw the TV Glow, filme em que Schoenbrun também transforma a relação com uma obra audiovisual em uma forma de discutir identidade e a sensação de estar preso dentro de uma vida que não parece pertencer a você. Em Acampamento Miasma, essa ideia ganha um corpo diferente, mais sexual, mais violento e muito mais interessado no prazer.
A pequena morte
Uma das coisas que mais me chamou atenção foi o nome do assassino: Little Death. Aqui existem algumas possíveis interpretações, sendo uma delas a relação com a expressão francesa la petite mort, ou "a pequena morte", frequentemente associada ao orgasmo e à sensação de perda momentânea de consciência ou de energia depois do prazer. O termo também pode ser utilizado de maneira mais ampla para falar de uma espécie de melancolia ou transcendência que acompanha o orgasmo, como se durante alguns segundos alguma coisa dentro de nós tivesse morrido para depois voltar. E acho difícil não perceber como essa ideia conversa diretamente com o que Schoenbrun está fazendo no filme.
Em Acampamento Miasma, prazer e morte parecem estar constantemente próximos. O prazer pode ser assustador, a morte pode ser prazerosa e o corpo pode ser, ao mesmo tempo, fonte de desejo e de medo. Essa mistura combina perfeitamente com o slasher, um gênero que historicamente transformou corpos, sexualidade e violência em espetáculo. Schoenbrun pega essa tradição e desloca tudo para outro lugar. Em vez de simplesmente usar o sexo como punição ou como parte do horror, o filme parece interessado em perguntar por que determinados desejos precisam ser tratados como algo assustador.
Se a "Little Death" já aproxima o orgasmo da morte, Freud oferece uma chave interessante para pensar essa relação. Em sua segunda teoria das pulsões, o psicanalista coloca em tensão as pulsões de vida, ligadas ao movimento, à criação e aos vínculos, e a pulsão de morte, relacionada à redução da tensão, à repetição e a uma espécie de retorno a um estado anterior. Não se trata simplesmente de querer morrer, mas de uma força que busca interromper a tensão. E é justamente aí que Acampamento Miasma parece brincar: o prazer sexual funciona como uma pequena morte, uma descarga que interrompe o desejo por um instante, enquanto a própria morte deixa de ser apenas o fim e passa a fazer parte desse ciclo de prazer, tensão e retorno.
Isso fica ainda mais evidente nas relações entre Kris e Billy. Nas conversas mais íntimas, quando elas começam a compartilhar experiências, paixões e desejos, as duas percebem que, apesar das diferenças, existe algo que as aproxima. Ambas carregam travas pessoais e experiências que dificultam a possibilidade de viver plenamente aquilo que desejam. Mesmo em um mundo em que a liberdade sexual e de gênero avançou bastante nas últimas décadas, ainda existem barreiras pessoais, familiares e sociais que fazem com que muitas pessoas sintam que precisam esconder quem são.
O interessante é que Acampamento Miasma não parece interessado em dizer que essas barreiras desapareceram. Ele simplesmente pergunta o que acontece quando tentam atravessá-las. E talvez seja justamente por isso que o sexo tenha tanto espaço no filme. Não é apenas uma provocação gratuita ou uma maneira de chocar o público. O sexo funciona como uma forma de descoberta, como uma maneira de entender o próprio corpo e também como uma possibilidade de existir sem precisar pedir desculpas pelo próprio desejo.
Um filme sobre sexo e sexualidade
É nesse ponto que acho que o filme se torna mais interessante. Acampamento Miasma não parece demonizar o voyeurismo, o fetiche ou o desejo. Ele trata essas coisas como parte da experiência humana. O desejo pode ser estranho, específico, pouco convencional e ainda assim continuar sendo desejo. Existe uma cena que, para mim, resume muito bem essa ideia. Kris fala sobre um de seus fetiches para Billy, esperando talvez algum tipo de julgamento. Billy, porém, não reage com estranhamento. Ela escuta, demonstra interesse e tenta compreender aquele desejo.
É uma cena simples, mas importante, porque o filme não transforma o fetiche em uma piada sobre algo "pervertido", nem precisa transformá-lo em um grande trauma psicológico. Existe apenas uma pessoa dizendo o que deseja e outra pessoa ouvindo. E talvez seja justamente aí que esteja uma das maiores provocações do filme. Ele não quer ser apenas "um filme queer sobre sexo". Ele quer ser um filme sobre sexo, sexo queer, sexo estranho, sexo convencional, fetiche, desejo, voyeurismo e prazer. Tudo isso pode existir sem precisar ser colocado imediatamente dentro de uma categoria moral.
A experiência queer está presente, mas não precisa ser o único assunto. Isso também faz com que o filme escape de uma armadilha comum em histórias sobre pessoas queer: a ideia de que suas vidas precisam necessariamente ser representadas através da dor, da violência ou da superação. Aqui também existe espaço para o prazer. E talvez isso seja muito mais radical do que parece. Ver personagens queer falando sobre desejo, experimentando seus corpos e descobrindo aquilo que gostam sem que tudo precise terminar em uma grande tragédia também é uma forma de representação.
Talvez seja por isso que Acampamento Miasma funcione tão bem quando deixa de tentar explicar suas próprias ideias. O filme é estranho, sexual, violento, engraçado e, em alguns momentos, completamente desconfortável. Ele parece entender que o desejo nem sempre é bonito ou organizado e que a descoberta de quem somos também pode ser confusa. Afinal, se existe alguma coisa que I Saw the TV Glow já entendia muito bem e que Acampamento Miasma leva para outro lugar, é que o cinema pode ser uma forma de enxergar aquilo que ainda não conseguimos dizer sobre nós mesmos.
No fim, Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte é um filme sobre muitas coisas. É uma homenagem aos slashers, uma sátira aos reboots intermináveis de Hollywood, uma história sobre cinema, identidade, isolamento e desejo. Mas, acima de tudo, é um filme sobre se permitir experimentar aquilo que você passou tanto tempo tentando esconder. Talvez seja por isso que a morte e o prazer estejam tão próximos durante toda a história. Para conseguir nascer de novo, alguma coisa dentro de nós precisa morrer primeiro.
E talvez, no fim das contas, seja exatamente isso que Schoenbrun esteja tentando dizer. Às vezes, para finalmente se tornar quem você é, é preciso deixar morrer a pessoa que você achava que precisava ser.
Nota: ★★★★
Direção: Jane Schoenbrun
Roteiro: Jane Schoenbrun
Gênero: Terror, Thriller, Drama, Romance
Origem: EUA, Canadá, Reino Unido
Duração: 112 minutos (1h52)
Disponível: Cinemas

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